Menos de um ano após tomarem posse, cinco deputados estaduais já
planejam trocar de função e disputar, em outubro, uma cadeira de
prefeito. A média é de 20% da Assembleia Legislativa, que dispõe de 24
parlamentares. Se somados aos que devem participar ativamente do pleito,
seja na condição de protagonistas ou de apoiadores de familiares em
primeiro grau, esse cálculo passa a ser de 15 (ou 61 %). Os deputados
Fernando Mineiro (PT) e Hermano Morais (PMDB) são pré-candidatos
declarados em Natal. Assim como eles, Larissa Rosado, do PSB, já cumpre
agenda de futura candidata em Mossoró. Esses três se juntam a Poti
Júnior, cujo nome já figura nas listas de candidaturas do PMDB para a
disputa majoritária em São Gonçalo do Amarante; e Gilson Moura, que
embora já enfrente resistências dentro da própria sigla, o PV, poderá
ser o nome dos verdes na campanha de Parnamirim.
Adriano Abreu
Deputados vão participar da campanha eleitoral com candidaturas ou apoio a candidatos
As
convenções ocorrem somente em junho e os parlamentares não necessitam
se licenciar para a disputa. Um dos poucos casos isolados, no entanto, é
o de Larissa Rosado. Ela tem afirmado que o processo eleitoral em
Mossoró é acirrado e que precisa de um contato ininterrupto com a
população. Por isso, a parlamentar deverá pedir licença do cargo de
deputada cedendo a vaga ao suplente, o advogado Lauro Maia (PSB), filho
da pré-candidata em Natal, Wilma de Faria (PSB). Neste período, Larissa
transfere inclusive o colégio das duas filhas, que estudam em Natal,
para uma das escolas da cidade oestana.
Larissa já vive um
cenário consolidado quanto a sua candidatura, quadro que se repete entre
os deputados estaduais nos casos de Mineiro e Hermano, que também já
foram avalizados pelas legendas as quais pertencem. De qualquer maneira,
ao fim dos arranjos estaduais, o número de deputados que realmente vão
concorrer a eleição pode - e geralmente é - menor por causa das
alianças.
A Assembleia Legislativa conta ainda em seus quadros
com cabos eleitorais potenciais, mas que não concorrerão ao pleito. São
os prováveis impulsionadores de candidaturas de parentes próximos. Um
exemplo é o próprio presidente da Casa. O deputado Ricardo Motta (PMN)
será o principal cabo eleitoral do filho, Rafael Motta, pré-candidato a
vereador em Natal. Situação semelhante ocorre com Agnelo Alves (PDT),
que participará da campanha do filho Carlos Eduardo Alves (PDT); Antônio
Jácome, que também se somará ao projeto do filho Jacó; e Getúlio Rêgo,
que ajudará na sucessão de Leonardo Rêgo, no município de Pau dos
Ferros.
Dos 24 parlamentares da AL somente Fábio Dantas (PHS),
José Dias (PSD), Leonardo Nogueira (DEM), Raimundo Fernandes (PMN),
Vivaldo Costa (PR) e Walter Alves (PMDB) não dispõem de parentes em
primeiro grau na disputa. A média de parlamentares diretamente
envolvidos (neste caso somente por candidatura própria) é ligeiramente
inferior à do Congresso Nacional, que é de 21%, segundo levantamento do
jornal Folha de São Paulo.
Na bancada federal, dois são pré-candidatos
No
caso dos deputados federais potiguares a média de parlamentares
possivelmente candidatos a cargos majoritários é de 25%. Dos oito dois
deles - um com pré-candidatura lançada, caso de Rogério Marinho (PSDB) -
e outro com o pé na disputa - Paulo Wagner, do PV - podem concorrer
respectivamente nos municípios de Natal e Parnamirim. O pevista pode vir
a ser a surpresa das convenções. Ele já disputa internamente no PV com o
deputado estadual Gilson Moura a condição de candidato da legenda no
município da Grande Natal. O nome de Wagner inclusive seria no momento o
mais simpático à prefeita da capital e presidente estadual do PV,
Micarla de Sousa.
Com a indefinição da participação dos pevistas
em Natal, a chefe do Executivo estaria apostando em uma maior
capilaridade do deputado federal que, além disso, cederia, caso eleito, a
vaga de parlamentar federal à Rosy de Sousa, suplente do PV e irmã de
Micarla de Sousa.
A Câmara Federal tem ainda em seus quadros a
deputada Sandra Rosado (PSB), mãe de Larissa Rosado, e que
costumeiramente tem uma passagem contundente e demorada durante as
eleições do principal reduto eleitoral, que é Mossoró. Os demais
parlamentares, Henrique Alves (PMDB), Fábio Faria (PSD), Fátima Bezerra
(PT), João Maia (PR), Felipe Maia (DEM), embora se espere deles uma
participação relevante e efetiva no pleito, não têm parentes em primeiro
grau na disputa.
'Candidatura ao Executivo reforça rede de apoio'
O
cientista político João Emanuel Evangelista, professor da Universidade
Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), observou ontem, em entrevista à
TRIBUNA DO NORTE, que é uma característica do sistema político
brasileiro - e em especial do Rio Grande do Norte - que cidadãos com
mandatos eletivos busquem visibilidade ou projetar membros da própria
família, aumentando, assim, o poder de influência. Para ele, o político,
em geral, não tem nada a perder se competir no meio do mandato. "No
Brasil tem a seguinte situação: por mais que tenha um sistema político
que equilibre todos os poderes é evidente que o Executivo tem uma
prevalência. Então, há um conjunto de mecanismos institucionais e, na
verdade, o Poder Excecutivo é realmente o poder mais forte no Brasil e é
mais ou menos dentro do esperado que um deputado ou vereador queria se
candidatar a um cargo quando isso não traz um risco de sobrevivência
política, ao contrário, pode significar ascensão"
Ele explicou
que, na pior das hipóteses, se o candidato não se eleger, consegue
reforçar os laços e a rede de apoios que podem viabilizar com maiores
chances a sua recondução ao Legislativo. "Além de ter a oportunidade de
reativar e confirmar os laços de apoiadores é a oportunidade de firmar
imagem pública maior e positiva. Trocando em miúdos, o político só tem a
ganhar", pontuou o professor da UFRN. Para ele, o político, em geral,
não tem nada a perder se competir no meio do mandato.
Ele
destacou também que, na ausência de uma instituição política que faça o
papel de mediador e consolidador de um projeto, prevalece a busca dos
laços familiares para substituir o alicerce partidário. "O que sobra é
contar com uma outra instituição que faça isso e quem substitui é a
família. É através dos familiares que você tem capacidade de segurança e
de fidelidade. Isso acaba criando 'partidos de familiares'", enfatizou,
para emendar: "Como os partidos no Brasil tem uma certa fragilidade
história outras instituições acabam como substitutos dos partidos".
Fonte: Tribuna do Norte